No instante em que a presença do Eterno se manifesta interiormente, o ser reconhece sua origem e encontra na plenitude o sentido de sua existência.
Lectio Libri Ecclesiastae I, II-XI
II. Vanitas vanitatum, dixit Ecclesiastes; vanitas vanitatum, et omnia vanitas.
Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes; vaidade das vaidades, e tudo é vaidade.
III. Quid habet amplius homo de universo labore suo quo laborat sub sole?
Que proveito tira o ser humano de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?
IV. Generatio præterit, et generatio advenit; terra autem in æternum stat.
Uma geração passa, outra geração chega, mas a terra permanece para sempre.
V. Oritur sol et occidit, et ad locum suum revertitur; ibique renascens,
O sol nasce e o sol se põe, e retorna ao lugar de onde surgiu, renascendo novamente.
VI. gyrat per meridiem, et flectitur ad aquilonem. Lustrans universa in circuitu pergit spiritus, et in circulos suos revertitur.
O sol percorre o sul e se volta para o norte. O sopro percorre tudo em seu movimento circular e retorna aos seus próprios caminhos.
VII. Omnia flumina intrant in mare, et mare non redundat; ad locum unde exeunt flumina revertuntur ut iterum fluant.
Todos os rios correm para o mar, mas o mar não transborda. Ao lugar de onde saem, os rios retornam, para novamente correrem.
VIII. Cunctæ res difficiles; non potest eas homo explicare sermone. Non saturatur oculus visu, nec auris auditu impletur.
Todas as coisas são difíceis de compreender plenamente. O ser humano não consegue exprimi-las inteiramente em palavras. O olho nunca se sacia de contemplar, nem o ouvido se enche de escutar.
IX. Quid est quod fuit? Ipsum quod futurum est. Quid est quod factum est? Ipsum quod faciendum est.
O que foi é aquilo que será. O que aconteceu é aquilo que tornará a acontecer.
X. Nihil sub sole novum, nec valet quisquam dicere: Ecce hoc recens est: jam enim præcessit in sæculis quæ fuerunt ante nos.
Nada há de novo debaixo do sol, nem alguém pode dizer que algo seja verdadeiramente novo, pois já existiu nos tempos que nos precederam.
XI. Non est priorum memoria; sed nec eorum quidem quæ postea futura sunt erit recordatio apud eos qui futuri sunt in novissimo.
Não permanece a memória dos que vieram antes, nem haverá recordação daqueles que virão depois, entre os que vierem em tempos posteriores.
Reflexão:
O instante revela sua profundidade quando o ser deixa de procurar novidade na sucessão e contempla aquilo que permanece.
Tudo passa na superfície, enquanto uma presença silenciosa sustenta o movimento de todas as coisas.
O que nasce, retorna; o que retorna, manifesta uma permanência que ultrapassa a sucessão visível.
No Tempo Vertical, o instante deixa de ser apenas passagem e se abre à presença que o sustenta.
A contemplação recolhe o ser do movimento exterior e o conduz à interioridade onde a permanência pode ser reconhecida.
Ali, a existência não encontra plenitude na novidade, mas na profundidade do ser que permanece presente.
O que parece repetição pode revelar uma ordem mais profunda, onde cada instante participa de uma realidade que não passa.
Contemplar é permanecer diante dessa presença, reconhecendo no instante a origem e a plenitude que transcendem toda sucessão.
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