És criatura e não Deus, mas, quando teu pensamento pretende igualar-se ao Eterno, a razão perde a medida de sua própria origem e limitação interior.
Lectio Prophetiae Ezechielis, XXVIII, I–X
I. Et factus est sermo Domini ad me, dicens.
1. E veio a mim a palavra do Senhor, revelando que a existência recebe sua verdadeira orientação quando se abre à realidade que a transcende.
II. Fili hominis, dic principi Tyri: Haec dicit Dominus Deus: Eo quod elevatum est cor tuum, et dixisti: Deus ego sum, et in cathedra Dei sedi in corde maris, cum sis homo, et non Deus: et dedisti cor tuum quasi cor Dei.
2. Filho do homem, dize ao príncipe de Tiro. Assim fala o Senhor Deus. Porque teu coração se elevou e disseste, Eu sou Deus e assento-me no trono de Deus, no coração do mar, embora sejas homem e não Deus, e fizeste teu coração semelhante ao coração de Deus. Quando a criatura pretende ocupar o lugar do Eterno, perde a medida de sua própria origem e transforma sua consciência em espelho de uma grandeza que não lhe pertence.
III. Ecce sapientior es tu Daniele: omne secretum non est absconditum a te.
3. Eis que te consideras mais sábio que Daniel e nenhum mistério parece oculto aos teus olhos. Entretanto, o conhecimento que não reconhece seu próprio limite transforma-se em ilusão, pois conhecer muitas coisas não significa possuir a origem última de todas elas.
IV. In sapientia et prudentia tua fecisti tibi fortitudinem, et acquisisti aurum et argentum in thesauris tuis.
4. Pela tua sabedoria e prudência adquiriste força para ti e acumulaste ouro e prata em teus tesouros. Porém, aquilo que foi recebido como instrumento pode tornar-se uma aparência de autossuficiência quando o ser esquece que nenhuma realidade criada possui em si mesma o fundamento de sua existência.
V. In multitudine sapientiae tuae, et in negotiatione tua multiplicasti tibi fortitudinem, et elevatum est cor tuum in robore tuo.
5. Pela abundância de tua sabedoria e por tua atividade multiplicaste tua força, e teu coração se elevou por causa de teu próprio poder. Assim, aquilo que deveria servir ao amadurecimento do ser pode tornar-se motivo de exaltação, quando a criatura confunde aquilo que recebeu com aquilo que ela própria é em sua origem.
VI. Propterea haec dicit Dominus Deus: Eo quod elevatum est cor tuum quasi cor Dei.
6. Por isso, assim fala o Senhor Deus. Porque teu coração se elevou como se fosse o coração de Deus. O desvio começa quando a criatura deixa de contemplar o Eterno como origem e passa a contemplar a si mesma como medida última da realidade.
VII. Idcirco ecce ego adducam super te alienos, robustissimos gentium: et nudabunt gladios suos super pulchritudinem sapientiae tuae, et polluent decorem tuum.
7. Por isso, eis que trarei contra ti estrangeiros, os mais poderosos entre as nações. Eles despojarão com suas espadas a aparência de tua sabedoria e profanarão teu esplendor. Aquilo que parecia permanente será revelado em sua condição passageira, e aquilo que parecia possuir consistência absoluta descobrirá sua fragilidade.
VIII. Interficient, et detrahent te: et morieris in interitu occisorum in corde maris.
8. Eles te ferirão e te derrubarão, e morrerás com a morte daqueles que perecem no coração do mar. A existência que se fecha sobre sua própria grandeza encontra finalmente o limite que nenhuma acumulação consegue ultrapassar.
IX. Numquid dicens loqueris: Deus ego sum, coram interficientibus te, cum sis homo, et non Deus, in manu occidentium te?
9. Acaso ainda dirás, Eu sou Deus, diante daqueles que te ferem, embora sejas homem e não Deus, nas mãos daqueles que te vencem? Quando a realidade se manifesta em sua verdade última, toda pretensão de autossuficiência perde sua aparência e a criatura reencontra a medida de seu próprio ser.
X. Morte incircumcisorum morieris in manu alienorum, quia ego locutus sum, ait Dominus Deus.
10. Morrerás com a morte dos incircuncisos, pela mão dos estrangeiros, porque Eu o disse, afirma o Senhor Deus. A palavra divina permanece como medida diante da qual toda realidade criada precisa reconhecer sua origem, seu limite e seu destino.
Reflexão
A criatura encontra sua grandeza quando reconhece a Fonte de onde recebeu o ser.
Nenhuma inteligência criada contém em si a plenitude do mistério que procura compreender.
O conhecimento amadurece quando deixa de transformar-se em pretensão de domínio absoluto.
Aquilo que parece permanente revela sua fragilidade diante da passagem do tempo.
Somente aquilo que se orienta para o Eterno pode atravessar interiormente o instante passageiro.
A verdadeira sabedoria consiste em permanecer diante da realidade sem usurpar seu fundamento.
Quando o coração abandona a própria exaltação, começa a reencontrar sua ordem mais profunda.
E, nessa ordem, o ser reconhece que sua plenitude nasce da comunhão com Aquele que permanece.
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