Pode o instrumento gloriar-se acima da mão que o conduz, esquecendo que toda ação verdadeira recebe sua origem daquele que silenciosamente lhe comunica o próprio sentido?
Lectio libri Isaiae Prophetae, X, V-VII, XIII-XVI
V
Vae Assur, virga furoris mei, et baculus ipse est, in manu eorum indignatio mea.
5
Ai da Assíria, vara de correção nas mãos do Altíssimo. Nenhuma realidade exerce plenamente sua ação por si mesma, pois toda manifestação permanece subordinada à ordem que a precede e lhe concede existência.
VI
Ad gentem fallacem mittam eum, et contra populum furoris mei mandabo illi, ut auferat spolia, et diripiat praedam, et ponat illum in conculcationem quasi lutum platearum.
6
Eu o envio contra uma nação infiel e lhe confio uma missão determinada. Mesmo quando os acontecimentos parecem nascer apenas da história, permanecem inseridos numa ordem mais profunda que conduz todas as coisas ao seu verdadeiro fim.
VII
Ipse autem non sic arbitrabitur, et cor eius non ita existimabit; sed ad conterendum erit cor eius, et ad internecionem gentium non paucarum.
7
Entretanto, seu coração não compreende o sentido daquilo que realiza. A vontade humana pode agir segundo seus próprios desígnios, sem perceber que existe uma ordem superior que permanece conduzindo silenciosamente toda a realidade.
XIII
Dixit enim: In fortitudine manus meae feci, et in sapientia mea intellexi; et abstuli terminos populorum, et principes eorum deprædatus sum, et detraxi quasi potens in sublimi sedentes.
13
Ele dizia. Foi pela força da minha mão que realizei tudo isso, e pela minha sabedoria alcancei tais feitos. Assim fala todo coração que perde de vista a origem da qual procede toda capacidade de agir e de compreender.
XIV
Et invenit quasi nidum manus mea fortitudinem populorum; et sicut colliguntur ova quae derelicta sunt, sic universam terram ego congregavi; et non fuit qui moveret pennam, et aperiret os, et ganniret.
14
Minha mão reuniu as riquezas das nações como quem recolhe ovos abandonados. Contudo, toda segurança construída apenas sobre si mesma revela sua fragilidade quando esquece a fonte permanente de onde procede o próprio ser.
XV
Numquid gloriabitur securis contra eum qui secat in ea? aut exaltabitur serra contra eum a quo trahitur? quomodo si elevetur virga contra levantem se, et exaltetur baculus, qui utique lignum est.
15
Pode o instrumento gloriar-se acima da mão que o conduz, esquecendo que toda ação verdadeira recebe sua origem daquele que silenciosamente lhe comunica o próprio sentido?
XVI
Propter hoc mittet Dominator, Dominus exercituum, in pinguibus eius tenuitatem; et subtus gloriam eius succensa ardebit quasi combustio ignis.
16
Por isso, toda grandeza edificada sobre a autossuficiência experimenta seu limite. Somente aquilo que permanece unido à origem invisível conserva uma plenitude que nenhuma realidade passageira pode consumir.
Reflexão
Toda aparência possui uma origem mais profunda do que aquilo que os olhos alcançam.
O coração amadurece quando reconhece que não é a fonte de si mesmo.
A verdadeira grandeza floresce no reconhecimento daquilo que sustenta toda existência.
O silêncio preserva a alma da ilusão do domínio absoluto.
Quem permanece fiel à verdade interior não se perde nas aparências do poder.
Toda obra alcança sua plenitude quando permanece unida à sua origem.
A permanência supera aquilo que apenas impressiona por um instante.
A sabedoria consiste em viver segundo a ordem que jamais deixa de sustentar o ser.
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