Quando a Palavra do Senhor penetra o silêncio do ser, aquilo que parecia morto desperta, e a existência reencontra sua origem, sua verdade e plenitude.
Prophetia Ezechielis, XXXVII, I-XIV
I. Facta est super me manus Domini, et eduxit me in spiritu Domini, et dimisit me in medio campi, qui erat plenus ossibus.
1. A mão do Senhor veio sobre mim, e o seu Espírito conduziu-me para o meio de um campo repleto de ossos. Ali, onde a vida parecia ter desaparecido inteiramente, a Palavra revelou que aquilo que aos olhos humanos parecia encerrado ainda permanecia aberto à ação daquele que sustenta todo ser.
II. Et circumduxit me per ea in gyro. Erant autem multa valde super faciem campi, siccaque vehementer.
2. Ele me fez passar ao redor deles, e eram numerosos sobre toda a extensão do campo, extremamente secos. A secura manifesta o limite daquilo que já não possui força própria para retornar à plenitude, mas também prepara o espaço onde uma ação superior poderá restaurar a ordem perdida.
III. Et dixit ad me. Fili hominis, putasne vivent ossa ista? Et dixi. Domine Deus, tu nosti.
3. E disse-me. Filho do homem, acaso poderão estes ossos viver? Eu respondi. Senhor Deus, vós o sabeis. Diante do limite da compreensão humana, permanece o reconhecimento de que a origem e a finalidade da vida pertencem àquele que conhece profundamente o ser e suas possibilidades.
IV. Et dixit ad me. Vaticinare de ossibus istis, et dices eis. Ossa arida, audite verbum Domini.
4. E disse-me. Profetiza sobre estes ossos e dize-lhes. Ossos ressequidos, escutai a palavra do Senhor. A Palavra alcança aquilo que parecia incapaz de responder, porque a realidade mais profunda do ser não se encerra naquilo que sua aparência presente manifesta.
V. Haec dicit Dominus Deus ossibus his. Ecce ego intromittam in vos spiritum, et vivetis.
5. Assim diz o Senhor Deus a estes ossos. Eis que farei entrar em vós o espírito, e vivereis. A vida não nasce apenas da estrutura exterior, mas do sopro que restitui ao ser sua capacidade de permanecer unido à fonte de onde procede.
VI. Et dabo super vos nervos, et succrescere faciam super vos carnes, et superextendam in vobis cutem, et dabo vobis spiritum, et vivetis, et scietis quia ego Dominus.
6. Porei tendões sobre vós, farei crescer a carne, estenderei sobre vós a pele e vos darei o espírito, e vivereis. Então reconhecereis que eu sou o Senhor. A restauração acontece como uma recomposição progressiva do ser, até que aquilo que estava disperso encontre novamente sua forma e sua unidade sob a ação daquele que lhe dá existência.
VII. Et prophetavi sicut praeceperat mihi. Factus est autem sonitus, prophetante me, et ecce commotio, et accesserunt ossa ad ossa, unumquodque ad juncturam suam.
7. Profetizei conforme me fora ordenado, e, enquanto eu profetizava, ouviu-se um ruído e aconteceu um movimento. Os ossos aproximaram-se uns dos outros, cada qual encontrando sua própria articulação. Aquilo que estava separado começou a reencontrar sua ordem, mostrando que a restauração verdadeira não consiste em simples acréscimo, mas na recuperação da unidade interior.
VIII. Et vidi, et ecce super ea nervi et carnes ascenderunt, et extenta est in eis cutis desuper, et spiritum non habebant.
8. E vi, e havia sobre eles tendões e carne, e a pele os revestia por cima, mas ainda não havia neles espírito. A forma havia sido restaurada, mas a forma, por si mesma, ainda não constituía a plenitude da vida. O ser necessita de um princípio interior que anime aquilo que exteriormente já foi recomposto.
IX. Et dixit ad me. Vaticinare ad spiritum, vaticinare, fili hominis, et dices ad spiritum. Haec dicit Dominus Deus. A quatuor ventis veni, spiritus, et insuffla super interfectos istos, et reviviscant.
9. E disse-me. Profetiza ao espírito, profetiza, filho do homem, e dize ao espírito. Assim diz o Senhor Deus. Vem dos quatro ventos, ó espírito, e sopra sobre estes mortos, para que revivam. O sopro divino alcança a profundidade que nenhuma forma exterior consegue produzir por si mesma e desperta novamente aquilo que permanecia silencioso.
X. Et prophetavi sicut praeceperat mihi, et ingressus est in ea spiritus, et vixerunt, steteruntque super pedes suos, exercitus grandis nimis valde.
10. Profetizei conforme me fora ordenado, e o espírito entrou neles. Eles viveram e se levantaram sobre os próprios pés, formando um grande exército. A vida recebida manifesta sua força quando o ser recupera sua unidade, sua orientação e sua capacidade de permanecer de pé diante da existência.
XI. Et dixit ad me. Fili hominis, ossa haec universa, domus Israel est. Ipsi dicunt. Aruerunt ossa nostra, et periit spes nostra, et abscissi sumus.
11. E disse-me. Filho do homem, todos estes ossos são a casa de Israel. Eles dizem. Nossos ossos estão ressequidos, nossa esperança desapareceu e fomos separados. A experiência do esvaziamento revela o momento em que a criatura já não encontra em suas próprias forças a razão suficiente para sustentar sua esperança.
XII. Propterea vaticinare, et dices ad eos. Haec dicit Dominus Deus. Ecce ego aperiam tumulos vestros, et educam vos de sepulchris vestris, populus meus, et inducam vos in terram Israel.
12. Por isso, profetiza e dize-lhes. Assim diz o Senhor Deus. Eis que abrirei os vossos túmulos, farei sair-vos de vossas sepulturas, meu povo, e vos conduzirei à terra de Israel. O túmulo deixa de ser a palavra definitiva sobre o ser, porque o Senhor pode abrir aquilo que parecia definitivamente fechado e conduzir a existência para uma nova condição de plenitude.
XIII. Et scietis quia ego Dominus, cum aperuero sepulchra vestra, et eduxero vos de tumulis vestris, popule meus.
13. E sabereis que eu sou o Senhor quando eu abrir as vossas sepulturas e vos fizer sair dos vossos túmulos, meu povo. O conhecimento de Deus nasce também da experiência de sua ação sobre aquilo que ultrapassa as possibilidades humanas, revelando que o fim aparente não constitui o fim verdadeiro.
XIV. Et dedero spiritum meum in vobis, et vixeritis, et requiescere vos faciam super humum vestram, et scietis quia ego Dominus locutus sum, et feci, ait Dominus Deus.
14. Porei em vós o meu espírito, e vivereis. Eu vos estabelecerei novamente sobre a vossa terra, e sabereis que eu sou o Senhor. Eu falei e eu o realizei, diz o Senhor Deus. A Palavra divina não permanece apenas como promessa, mas alcança a realidade e conduz o ser à sua restauração, fazendo da existência renovada uma resposta viva àquele que a chamou à plenitude.
Reflexão:
O silêncio do ser não significa ausência, pois a origem permanece sustentando aquilo que ainda pode renascer.
Aquilo que parece encerrado pode conservar uma possibilidade que somente uma ação superior consegue despertar.
A Palavra alcança a profundidade onde a forma exterior já não encontra força para restaurar-se.
O espírito reúne novamente aquilo que estava disperso e conduz cada realidade à sua unidade própria.
A verdadeira renovação começa quando a pessoa reconhece que sua existência não termina nos seus limites presentes.
Cada instante pode acolher uma transformação interior capaz de orientar novamente a inteligência, a vontade e o coração.
Aquele que reconhece sua origem aprende a permanecer firme diante daquilo que ainda não compreende plenamente.
Quando o sopro divino penetra o ser, a existência reencontra sua direção e caminha para a plenitude.
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