Seu manto resplandecia em brancura absoluta, sinal da pureza eterna que envolve o mistério divino e eleva a alma ao silêncio da contemplação sagrada interior.
Lectio Prophetiae Danielis, VII, IX-X, XIII-XIV
IX
Aspiciebam donec throni positi sunt, et antiquus dierum sedit. Vestimentum ejus candidum quasi nix, et capilli capitis ejus quasi lana munda: thronus ejus flammæ ignis: rotæ ejus ignis accensus.
9 Eu contemplava, até que foram colocados os tronos, e o Ancião de Dias se assentou. Sua veste era branca como a neve, e os cabelos de sua cabeça eram como lã puríssima. Seu trono era como chama de fogo, e suas rodas, como fogo ardente. Diante dessa visão, o espírito percebe que, acima da sucessão de tudo o que passa, existe uma realidade cuja eternidade não envelhece, cuja pureza não se altera e cujo ser permanece na plenitude de sua própria luz.
X
Fluvius igneus rapidusque egrediebatur a facie ejus. Millia millium ministrabant ei, et decies millies centena millia assistebant ei: judicium sedit, et libri aperti sunt.
10 Um rio de fogo, rápido e impetuoso, saía de sua presença. Milhares de milhares o serviam, e miríades incontáveis permaneciam diante dele. O julgamento se estabeleceu, e os livros foram abertos. Tudo aquilo que permanece oculto no interior da criatura encontra-se diante da verdade que conhece todas as coisas, enquanto a existência é chamada a reconhecer aquilo que nela possui realidade duradoura.
XIII
Aspiciebam ergo in visione noctis, et ecce cum nubibus cæli quasi filius hominis veniebat, et usque ad antiquum dierum pervenit: et in conspectu ejus obtulerunt eum.
13 Eu contemplava, nas visões da noite, e eis que, com as nuvens do céu, vinha alguém semelhante ao Filho do Homem. Ele aproximou-se do Ancião de Dias e foi apresentado diante de sua presença. Aquele que vem das alturas manifesta, no interior da história, uma realidade que ultrapassa a simples sucessão dos acontecimentos e conduz a criatura ao encontro daquele princípio eterno de onde procede toda plenitude.
XIV
Et dedit ei potestatem, et honorem, et regnum: et omnes populi, tribus, et linguæ ipsi servient: potestas ejus, potestas æterna, quæ non auferetur: et regnum ejus, quod non corrumpetur.
14 E foi-lhe dado poder, honra e reino, para que todos os povos, tribos e línguas o servissem. Seu poder é eterno e jamais lhe será retirado, e seu reino não será destruído. Nele, aquilo que passa encontra sua medida diante daquilo que permanece, e toda a existência reconhece uma soberania que não depende da mudança, do desgaste ou da corrupção das coisas temporais.
Reflexão
A visão de Daniel revela uma realidade que ultrapassa a aparência e a sucessão dos acontecimentos.
Diante do Eterno, tudo aquilo que passa encontra seu verdadeiro peso e sua justa medida.
A alma aprende a não entregar seu centro interior às coisas que mudam incessantemente.
A serenidade nasce quando o espírito reconhece que nem toda mudança possui autoridade sobre sua verdade mais profunda.
O Filho do Homem manifesta uma realeza que não envelhece, não se dissolve e não depende da instabilidade do mundo.
Contemplar essa realidade significa ordenar o pensamento segundo aquilo que permanece diante da verdade.
O coração encontra firmeza quando aprende a distinguir o transitório do que possui plenitude duradoura.
Assim, a existência pode atravessar o tempo sem perder de vista aquele Reino que não será destruído.
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