Uma mulher revestida de luz eterna, permanecendo acima da mudança, traz sob seus pés a temporalidade, enquanto contempla silenciosamente a plenitude do ser.
Lectio libri Apocalypsis Sancti Ioannis, XI, XIX; XII, I.III-VI.XAB
XIX. Et apertum est templum Dei in cælo, et visa est arca testamenti ejus in templo ejus, et facta sunt fulgura, et voces, et terræmotus, et grando magna.
19. O templo de Deus abriu-se no Céu, e apareceu a arca de sua aliança em seu templo. Então manifestaram-se relâmpagos, vozes, um terremoto e uma grande tempestade de granizo. O invisível revelou sua presença, e aquilo que permanecia oculto alcançou a manifestação, mostrando que a realidade divina sustenta e ultrapassa toda ordem passageira.
I. Et signum magnum apparuit in cælo, mulier amicta sole, et luna sub pedibus ejus, et in capite ejus corona stellarum duodecim.
1. Apareceu no Céu um grande sinal, uma mulher revestida de sol, tendo a lua sob seus pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas. Nela, a criatura aparece envolvida pela luz superior, enquanto aquilo que pertence à sucessão temporal permanece submetido à ordem de uma realidade mais elevada.
III. Et visum est aliud signum in cælo, et ecce draco magnus rufus habens capita septem, et cornua decem, et in capitibus ejus diademata septem.
3. Apareceu ainda outro sinal no Céu, e eis um grande dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres, trazendo sobre suas cabeças sete diademas. A imagem manifesta a força da desordem que procura elevar-se contra a ordem superior, mas cuja existência permanece submetida ao juízo daquele que transcende toda oposição.
IV. Et cauda ejus trahebat tertiam partem stellarum cæli, et misit eas in terram, et draco stetit ante mulierem, quæ erat paritura, ut cum peperisset, filium ejus devoraret.
4. Sua cauda arrastava a terça parte das estrelas do Céu e as lançava sobre a terra. O dragão permanecia diante da mulher que estava para dar à luz, procurando devorar seu filho depois que nascesse. O mistério da vida aparece cercado pela resistência, mas aquilo que procede do Alto não encontra sua medida definitiva na força da oposição.
V. Et peperit filium masculum, qui recturus erat omnes gentes in virga ferrea, et raptus est filius ejus ad Deum, et ad thronum ejus.
5. Ela deu à luz um filho varão, que haveria de reger todos os povos com cetro de ferro. Seu filho foi arrebatado para junto de Deus e para o seu trono. A manifestação temporal conduz novamente à origem eterna, revelando que o Filho não encontra sua plenitude na sucessão dos acontecimentos, mas na comunhão com aquele de quem procede.
VI. Et mulier fugit in solitudinem, ubi habebat locum paratum a Deo, ut ibi pascant eam diebus mille ducentis sexaginta.
6. A mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe havia preparado um lugar, para que ali fosse sustentada durante mil duzentos e sessenta dias. O deserto torna-se espaço de recolhimento e preservação, onde a existência permanece guardada até que se cumpra o desígnio que ultrapassa a medida imediata dos acontecimentos.
X. Et audivi vocem magnam in cælo dicentem, Nunc facta est salus, et virtus, et regnum Dei nostri, et potestas Christi ejus, quia projectus est accusator fratrum nostrorum, qui accusabat illos ante conspectum Dei nostri die ac nocte.
10. Então ouvi no Céu uma grande voz que dizia, Agora chegaram a salvação, a força, o Reino de nosso Deus e o poder de seu Cristo, porque foi lançado fora o acusador de nossos irmãos, aquele que os acusava diante de nosso Deus, dia e noite. A realidade última manifesta-se como vitória da verdade, e aquilo que permanecia submetido à acusação perde seu domínio diante da soberania divina.
Reflexão
O mistério divino permanece acima da sucessão dos acontecimentos.
A mulher revestida de sol manifesta a criatura envolvida pela luz do Alto.
A lua sob seus pés recorda que o mutável não possui domínio absoluto.
O deserto revela a fecundidade silenciosa do recolhimento interior.
O que nasce no ocultamento pode possuir uma realidade destinada à eternidade.
A alma amadurece quando permanece firme diante das forças que procuram dispersá-la.
A verdade não necessita do ruído para afirmar sua permanência.
Diante de Deus, o ser encontra sua ordem, sua firmeza e sua plenitude.
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